segunda-feira, 31 de julho de 2017

3. A Menina e o Gato de Rua

- Então você já viu morrerem muitos dos seus? – perguntou a Menina, assombrada.
- Inúmeros. – respondeu o Gato de Rua – Da ninhada que fiz parte, dos 6 gatos que naquele dia vieram ao mundo, sou o único que sobreviveu.
- Que horror! – disse a Menina com os olhos cheios de lágrimas.
- Por favor, guarde sua pena para você. Nós, gatos de rua, sabemos do perigo que caminha lado a lado com nossa existência. Ninguém quer a sua piedade por aqui.
- Mas você não se entristece?
- Naturalmente. Quando morre um dos nossos, nós cantamos nossa perda, celebramos nossa tristeza. Fazemos nossas serenatas como uma forma de luto. Mas nunca nos apiedamos.
- Mas tenho pena por você não ter uma casa, um dono...
- Fui pego da rua quando era filhote. Tive uma casa e um dono. Por mais que você não compreenda, Menina, muitos dos gatos escolhem a rua, assim como eu fiz.
- Mas não é uma vida de muito risco?
- Essa é uma pergunta tola, Menina. O risco é o motivo para nós, gatos, escolhermos a rua.
- Então vocês não temem a morte?
- Não, Menina: nós amamos a vida. Nos arriscamos tanto porque sabemos que as delícias de viver se escondem do lado de lá da segurança, nos quintais vigiados por cachorros, nas lixeiras depois dos arames, nos ninhos no topo das árvores. O risco, Menina, é o motor da vida.
- Você tem mesmo muita coragem... – respondeu a Menina com admiração e fez um último afago no Gato de Rua, antes de se despedir.
Depois daquela conversa, a Menina ficou inquieta. Pensava nos inúmeros aprendizados de segurança que recebera ao longo de sua educação. Pensava na vida que fugia enquanto ela, a Menina, seguia os protocolos de segurança do seu cotidiano. No dia seguinte, ao invés de apanhar o ônibus, sem contar para ninguém, a Menina voltou a pé da sua escola.
Apesar do risco.


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

2. A Menina e o Cão de Guarda da Policia

- Você nunca se cansa? – perguntou a Menina ao Cão de Guarda da Policia.
- Eu não posso me cansar. – respondeu o policial canino – É quando nos cansamos que o inimigo vem.
- E quem são os inimigos?
- Essa pergunta não faz o menor sentido, Menina. Nós, cães da policia, não somos treinados para reconhecer o inimigo.
- Então vocês são treinados para o quê?
- Para reconhecer os aliados.
- E todo o resto é inimigo?
- Todo o resto é uma ameaça. Por isso, não podemos descansar.
- Mas não é uma vida de muito ódio? – perguntou a Menina, sinceramente preocupada.
- Também nisso somos treinados. – respondeu o cão de guarda. – Você, Menina, precisa compreender o ódio de outra forma. Para nós, policiais caninos, o ódio não é um sentimento, é uma ferramenta. Sem ela, não é possível realizar nosso trabalho.
- Então porque você não rosnou para mim?
- Porque mesmo o ódio tem suas exceções.
- Compreendo... – Respondeu pensativa. – Obrigada por isso.
E se despediu do Cão de Guarda da Policia, que vigiou atentamente os passos da Menina enquanto ela ia embora.
Naquela noite, a preocupação não deixou a Menina dormir. Pensava no futuro, em um tempo em que todos os afetos tenham virado ferramentas, em que as pessoas caminharão por aí, ocas, mecanicamente apressadas com suas caixas de utensílios sentimentais.
E cantou. Cantou sua música predileta.
E encheu seu quarto de afeto.

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

1. A Menina e o Pássaro Engaiolado

- Mas não é terrível? – perguntou a Menina ao pássaro engaiolado.
- Para ser sincero, não. Eu até prefiro.
- Mas como pode alguém preferir ficar engaiolado a voar pelo céu?
- É que você vê o céu com muita poesia, Menina. Em primeiro lugar, voar cansa muito. Cansam-se as asas, o pulmão, os olhos. Só é possível voar com muito cansaço. Em segundo lugar, existem muitos perigos no céu. Gatos à espreita, carros assassinos, estilingues mortais. Voar é sempre um gesto de muito perigo.
- Então é por causa do cansaço e do medo que você não voa mais?
- Não, Menina, é por causa do cansaço e do medo que eu prefiro viver numa gaiola.
- Mas seus dias não são todos iguais?
- São igualmente seguros, mas coisas também acontecem na segurança. Vejo muitas coisas aqui da minha gaiola. Tenho o privilégio de observar o mundo e pensar e cantar sobre ele.
- Tudo de dentro da sua gaiola?
- Tudo de dentro da minha gaiola. Estou te dizendo, tem suas qualidades. De manhã todos nós, pássaros engaiolados da rua, cantamos juntos. Cantamos sobre as maravilhas de vivermos em gaiolas.
- Eu já ouvi. – respondeu a Menina tristemente – É mesmo muito bonito.
E se despediu do pássaro em sua gaiola, que cantou para se despedir enquanto a Menina ia embora. Naquele dia, a Menina teve medo do futuro. Temeu pelo tempo em que todos os pássaros desejarão de bom grado as gaiolas à possibilidade do voo.
E chorou.


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

25. A Menina e o Mundo

- Eu ando muito preocupada com você... – disse a Menina para o Mundo, aflita.
- Eu sei. Eu consigo perceber. Tenho observado suas andanças Menina. E sinceramente, preciso lhe pedir desculpas.
- Por que? – perguntou a Menina, sem entender.
- Para você sobram apenas lições duras, aprendizados feitos de espinhos em meio a selva triste. É assim que estou, Menina. – disse o Mundo, com pesar. – Cheio de brutalidade e ódio. Me desculpe por tanta violência em cima de você, ainda tão jovem.
- É verdade. Muitas vezes fico machucada com as conversas e acontecimentos que tenho com as coisas que te habitam, Mundo. Mas mesmo assim, você não me deve desculpas. – respondeu a Menina, acolhedora. – Nós te fazemos todos os dias, Mundo. E se hoje todas as coisas são tão cheias de violência, é porque ainda não aprendemos a te fazer direito.
- Mais uma lição dura para você, Menina. E eu não posso mentir: muitas outras virão. Sempre em tuas caminhadas te sobrarão pedras e ervas daninhas. – respondeu o Mundo, com tristeza.
- Sim, você tem razão. Eu sei que ainda vou me machucar outras vezes nos passos do meu caminho. Mas Mundo, as coisas não são feitas só de dor e tristeza. Às vezes, em alguns momentos, sobram também alegrias, gestos de amizade, jeitos de amar. Nem só de ódio são feitas as coisas da existência, Mundo.
- É tão bom ouvir isso... – respondeu o Mundo, cheio de afeto. – Gratidão por essa conversa, Menina. É bom que você possa cultivar, nos cantos e frestas desse Mundo caduco, alguma poesia e afeto. Isso faz desse Mundo triste um pouco mais feliz. Hoje é você que me ensina uma lição.
- Eu que sigo, Mundo, aprendendo na minha caminhada. – respondeu a Menina, também afetuosa.
E sorriram, a Menina e o Mundo, e em silêncio ficaram, pensando em toda existência que seguia, atribulada em seu árduo trabalho de existir. Depois, se despediram.
A Menina seguiu seu caminho, colhendo conversas com as coisas da existência.
“Coragem!” pensou o Mundo. Enquanto observava de longe a Menina em sua caminhada.

[Aqui se encerram os contos das Conversas da Menina com o Mundo. Gratidão a todas e todos que acompanham semanalmente as publicações!
O livro ilustrado, com todas as 25 histórias, numa linda edição em capa dura, está a venda na Livraria Cultura, nesse link aqui ]



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

24. A Menina e o Nariz de Palhaço

- Então sua função é fazer as outras pessoas rirem? – perguntou a Menina ao Nariz de Palhaço, animada. 
- Somos a ferramenta usada para isso. Somos apetrechos nas mãos de hábeis artesãos. 
- Que artesãos? 
- Os palhaços, Menina, os artesãos do riso! Nós, narizes de palhaços, junto aos outros apetrechos, maquiagens, adereços, figurinos, servimos de ferramenta para que os palhaços e palhaças façam o seu trabalho: produzir o riso! 
- Parece um trabalho importante. 
- E é mesmo. A humanidade sempre tem seus carpinteiros do riso, pessoas cujo trabalho é esse, produzir alegria e felicidade. Cada tempo tem o seu. Os palhaços são tão antigos quanto a mais antiga sociedade humana. 
- Uau! – exclamou a Menina, deslumbrada. 
- O riso é uma coisa bastante poderosa. – disse o Nariz de Palhaço, compartilhando o deslumbramento da Menina. – Desmancha os contornos rígidos das autoridades, a seriedade dos discursos da ordem, os limites que amarram os corpos e suas relações com o mundo. 
- Ser palhaço deve ser uma coisa muito divertida! – falou a Menina, inocente.
- Isso não é verdade.
- Mas vocês não trabalham produzindo o riso? 
- Um padeiro deixa de sentir fome por produzir centenas de pães todas as manhãs? Fazer o riso é o ofício dos palhaços e palhaças, Menina, sua forma de fazer a vida. Um trabalho, como outro qualquer, feito de cansaço, dificuldades e algumas alegrias. Nos dias atuais, não é nada fácil ser palhaço. 
- É uma coisa triste de se ouvir... 
- Um pouco. Mas apesar das inúmeras dificuldades, Menina, ainda resta o riso, apesar de tudo. Ainda resta a felicidade que arrancamos com nosso trabalho de produzir a alegria, que contraria, mesmo que só por um segundo, todo esse triste e lamentável arranjo do mundo. É por isso que seguimos, Menina, fabricando as risadas, apesar de tudo. 
- Eu adoro os palhaços! – disse a Menina, com sincera alegria. E, ao invés de se despedir, vestiu o nariz de palhaço. Ficou assim, o resto do dia, palhaçando por aí.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

23. A Menina e o Espelho

- Você passa todo o tempo refletindo o mundo? – perguntou a Menina ao Espelho.
- Sim. Esta é nossa principal função de espelhos: refletir em imagem a superfície da existência. Cumprimos com dedicação nosso trabalho. Atualmente, somos bem populares.
- É verdade, os espelhos habitam quase todos os lugares.
- Temos diversas utilidades. No entanto, nesse tempo que estamos, o que mais fazemos, sem dúvida, é permitir que a espécie humana fique contemplando sua própria imagem, vaidosamente. Nesses dias que vivemos, Menina, as imagens passaram a ter muito valor. – respondeu o Espelho, filosófico.
- Mas quem é que não gosta, pelo menos um pouquinho, de se arrumar na frente do espelho? – retrucou a Menina, com sinceridade.
- Você tem razão. Temos consciência disso. Nós, espelhos, nos orgulhamos do nosso trabalho, do nosso esforço de refletir o mundo, de habitarmos tantos lugares. Mas, sinceramente, estamos sendo supervalorizados.
- Como assim?
- As coisas da existência possuem sua imagem, é verdade. E é importante que se organize a superfície da vida, a aparência das criaturas humanas, tão cheias de vontades. Mas a existência não é feita só de superfícies. As coisas têm imagem, mas também possuem função, propósito, história. A espécie humana sangra e sonha, para além do regime superficial das aparências.
- Como se a imagem da vida importasse mais que tudo?
- Como se a imagem da vida importasse mais que tudo. Nossa popularidade, a popularidade dos espelhos, reflete exatamente isso: a vitória da imagem da existência sobre a existência propriamente dita.
- Puxa, que coisa complexa... – disse a Menina, estupefata.
- Também acho. O que me leva a concluir: nosso trabalho de espelhos é muito valorizado atualmente. Lembre-se sempre disso.
A Menina sorriu em resposta ao conselho do Espelho e se despediu, não sem antes dar uma olhadinha no seu reflexo e ajeitar seu black.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

22. A Menina e o Cachorro do Carroceiro

- Vocês trabalham o dia inteiro? – perguntou a Menina, espantada.
- Praticamente sim. – respondeu o Cachorro do Carroceiro, com disposição. – Acordamos antes do dia se levantar e voltamos para casa quando a noite já avançou. Trabalhamos de sol a sol, dirigindo nossa carroça pelas ruas da cidade apressada. Quase não temos descanso, meu dono e eu.
- E o que vocês fazem?
- Pescamos em meio ao lixo tudo aquilo que pode ser reciclado. Recolhemos o que pode ser aproveitado do que os comércios e casas jogam fora. Passamos o dia circulando por aí, apanhando esses materiais e vendendo nos centros de reciclagem. Nosso veículo de trabalho não polui. Ao contrário, recicla. – disse o Cachorro do Carroceiro, com inteligência.
- Porque vocês precisam trabalhar tanto se fazem uma coisa tão importante? – perguntou a Menina, sem entender.
- Porque o mundo não é um lugar de igualdades, Menina. Aqueles que habitam o lado oposto da riqueza só conseguem sobreviver com muito esforço. Nós, cachorros de carroceiros, junto de nossos donos, fazemos nossa existência desse lugar. Nosso trabalho e esforço valem muito pouco.
- Eu fico triste por vocês.
- Por favor, não faça isso. É verdade, reciclamos toneladas em troca de centavos, vivemos agressões de todos os tipos, trabalhamos 10, 12 horas por dia, mas mesmo assim, mesmo assim temos uma vida, para além da tristeza do nosso cansaço. Conhecemos os outros carroceiros com seus cachorros, caminhamos lado a lado com as outras existências que se fazem na sombra dos palácios. E assim escrevemos nossa presença na cidade e na História. É apoiado em nossos pares que fazemos nosso cotidiano, Menina, que erguemos nossas famílias, comunidades, nossa cultura de gente simples, nascida da falta, filha da miséria, mas cheia de vida e luta.
- Tudo isso vocês carregam em suas carroças?
- Tudo isso carregamos em nossas carroças. – concluiu o Cachorro do Carroceiro, com simplicidade. – Trabalhando de sol a sol sem descanso.
A Menina se despediu do cachorro do carroceiro, que abanou o rabo e partiu, junto do seu dono. Enquanto se afastavam a Menina ficou ali, parada, observando o caminhar da carroça, feita de papelões, cansaços, marmitas e sonhos.

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