segunda-feira, 17 de agosto de 2015

23. A Menina e o Espelho

- Mas você passa todo o tempo refletindo o mundo? – perguntou a Menina ao Espelho.
- Sim. Esta é nossa principal função de espelhos: refletir em imagem a superfície da existência. Cumprimos com dedicação nosso trabalho. Atualmente, somos bem populares.
- É verdade. Os espelhos habitam quase todos os lugares.
- Temos diversas utilidades. No entanto, nesse tempo que estamos, o que mais fazemos, sem dúvida, é permitir que a espécie humana fique contemplando sua própria imagem, vaidosamente. Nesses dias que vivemos, Menina, as imagens passaram a ter muito valor. – respondeu o Espelho, filosófico.
- Mas quem é que não gosta, pelo menos um pouquinho, de se arrumar na frente do espelho? – retrucou a Menina, com sinceridade.
- Você tem razão. Temos consciência disso. Nós, espelhos, nos orgulhamos do nosso trabalho, do nosso esforço de refletir o mundo, de habitarmos tantos lugares. Mas, sinceramente, estamos sendo supervalorizados.
- Como assim?
- As coisas da existência possuem sua imagem, é verdade. E é importante que se organize a superfície da vida, a aparência das criaturas humanas, tão cheias de vontades. Mas a existência não é feita só de superfícies. As coisas têm imagem, mas também possuem função, propósito, história. A espécie humana sangra e sonha, para além do regime superficial das aparências.
- Como se a imagem da vida importasse mais que tudo?
- Como se a imagem da vida importasse mais que tudo. Nossa popularidade, a popularidade dos espelhos, reflete exatamente isso: a vitória da imagem da existência sobre a existência propriamente dita.
- Puxa, que coisa complexa... – disse a Menina, estupefata.
- Também acho. O que me leva a concluir: nosso trabalho de espelhos é muito valorizado atualmente. Lembre-se sempre disso.
A Menina sorriu em resposta ao conselho do Espelho e se despediu.

Não sem antes dar uma olhadinha no seu reflexo e ajeitar seu black.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

22. A Menina e o Cachorro do Carroceiro

- Mas vocês trabalham o dia inteiro? – perguntou a Menina, espantada.
- Praticamente sim. – respondeu o Cachorro do Carroceiro, com disposição. – Acordamos antes do dia se levantar e voltamos para casa quando a noite já avançou. Trabalhamos de sol a sol, dirigindo nossa carroça pelas ruas da cidade apressada. Quase não temos descanso, meu dono e eu.
- E o que vocês fazem?
- Pescamos em meio ao lixo tudo aquilo que pode ser reciclado. Recolhemos o que pode ser aproveitado do que os comércios e casas jogam fora. Passamos o dia circulando por aí, apanhando esses materiais e vendendo nos centros de reciclagem. Nosso veículo de trabalho não polui. Ao contrário, recicla. – disse o Cachorro do Carroceiro, com inteligência.
- Porque vocês precisam trabalhar tanto se fazem uma coisa tão importante? – perguntou a Menina, sem entender.
- Porque o mundo não é um lugar de igualdades, Menina. Aqueles que habitam o lado oposto da riqueza só conseguem sobreviver com muito esforço. Nós, cachorros de carroceiros, junto de nossos donos, fazemos nossa existência desse lugar. Nosso trabalho e esforço valem muito pouco.    
- Eu fico triste por vocês...
- Por favor, não faça isso. É verdade, reciclamos toneladas em troca de centavos, vivemos agressões de todos os tipos, trabalhamos 10, 12 horas por dia, mas mesmo assim, mesmo assim temos uma vida, para além da tristeza do nosso cansaço. Conhecemos os outros carroceiros com seus cachorros, caminhamos lado a lado com as outras existências que se fazem na sombra dos palácios. E assim escrevemos nossa presença na cidade e na História. É apoiado em nossos pares que fazemos nosso cotidiano, Menina, que erguemos nossas famílias, comunidades, nossa cultura de gente simples, nascida da falta, filha da miséria, mas cheia de vida e luta.
- Tudo isso vocês carregam em suas carroças?
- Tudo isso carregamos em nossas carroças. – concluiu o Cachorro do Carroceiro, com simplicidade. – Trabalhando de sol a sol sem descanso.
A Menina se despediu do cachorro do carroceiro, que abanou o rabo e partiu, junto do seu dono. Enquanto se afastavam a Menina ficou ali, parada, observando o caminhar da carroça.
Feita de papelões, cansaços, marmitas e sonhos.











segunda-feira, 3 de agosto de 2015

21. A Menina e a Moeda

- Mas então vocês mandam no mundo? – perguntou a Menina, assombrada.
- Sim e não. – respondeu a Moeda, com rigor. – Nós, moedas e notas, criaturas do dinheiro, somos as ferramentas usadas para isso.
- Isso o que?
- Mandar no mundo, dominá-lo. Nos dias de hoje, mais do que nunca, é em nosso trabalho que se apoiam os donos de tudo.
- E qual é esse trabalho?
- Traduzir o mundo para nossa linguagem, a linguagem do dinheiro. Esta é nossa principal função: dizer no alfabeto dos preços e valores todas as coisas da existência. Catalogar no dialeto do Mercado tudo quanto ainda não tenha sido catalogado. Eis nosso trabalho: nomear todos os aspectos que fazem a vida em moedas, notas e cifras.
- Mais que coisa engenhosa...
- Você nem imagina, Menina. – disse a Moeda, com eficiência. – Nunca pensávamos que nosso trabalho iria tão longe! Atualmente, coisas que algum tempo não imaginávamos como nomear já estão aí, traduzidas para nossa linguagem de valores e lucros.
- Que tipo de coisas?
- Toda sorte de coisas: objetos, serviços, sonhos, afetos, desejos, modos de vida... Basicamente, tudo. Colonizamos muitos dos aspectos da vida. Estamos a um passo de nomear todas as coisas da existência na linguagem do dinheiro. Não temos limite para nossa potência de catalogar tudo.
- Mas isso não é terrível?!
- Depende do ponto de vista. Para aqueles que possuem o controle do nosso trabalho de moedas e notas, os engenheiros que operam e inventam a linguagem do dinheiro, para esses as coisas vão muito bem.
A Menina permaneceu em silêncio, perplexa. Com a Moeda na mão pensava no futuro, em um tempo em que todas as coisas tenham sua etiqueta de preço, em que os sonhos fiquem a venda nas prateleiras dos supermercados, em que nossos desejos mais secretos sejam planejados pelos donos do dinheiro.
Ainda perplexa se despediu da Moeda.
E comprou um chocolate.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

20. A Menina e o Bicho-Preguiça

- Mas você não tem vontade de fazer as coisas de um jeito mais agitado? – perguntou a Menina, curiosa.
- Diversas vezes. – respondeu o Bicho-Preguiça, com certo pesar. – Alguns dias acordo com uma vontade de fazer tudo de um jeito apressado, urgente, cheio de energia. Mas então lembro do importante trabalho que tenho de realizar, e desisto.
- Qual trabalho?
- O trabalho que todo bicho-preguiça faz, nosso trabalho.
- E que trabalho seria este?
- Não está claro? Operar a preguiça, descansar. Eis nossa tarefa de bichos-preguiças: realizar todas as coisas da existência com o mínimo de esforço, o menor gasto de energia, sem a menor sombra de irritação ou ansiedade.
- Que moleza de trabalho, hein?
- Aí que você se engana, Menina. – respondeu o Bicho-Preguiça, com sabedoria. – Nesses tempos que estamos é cada vez mais difícil operar a preguiça, fabricar o descanso. Nunca as coisas pareceram tão urgentes, apressadas, como se existir fosse um ato de produtividade. Todos sentem muita pressão nas costas. Nunca nosso trabalho de bichos-preguiças foi tão importante.
- Por que?
- Por que com nosso trabalho lembramos as coisas da existência que a pressa é só mais um jeito de fazer as coisas, só mais um modo de fabricarmos a vida. Nós, bichos-preguiças, somos a lembrança permanente de que os acontecimentos podem ter mais calma. Em suma, servimos para lembrar a necessária preguiça de todas as coisas.
- A necessária preguiça de todas as coisas... – repetiu a Menina, pensativa. E se despediu do Bicho Preguiça, que acenou vagarosamente e, com toda a calma do mundo, escalou a árvore para começar seu dia.
No resto da manhã, a Menina ficou à toa. Sentou-se em um canto qualquer e, como num ato vital, mas sem esforço, deitou na grama, preguiçosamente. E ficou ali, arrastando o dia.
Desnecessariamente olhando os acasos da vida.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Começo das Despedidas

Leitoras e leitores das Conversas da Menina com o Mundo,

Excepcionalmente esta semana não será publicado nenhum conto nesta página. Ao invés disso, o que se tem é um comunicado, dado com pesar: as publicações das Conversas da Menina com o Mundo caminham para seu fim.
Isso mesmo: o conto de número 25 será o último conto publicado.
Este projeto tinha esse objetivo desde o início. A meta era conseguir acumular 25 contos, escrevendo, desenhando, digitalizando e colorindo conto a conto, segunda a segunda, durante 6 meses consecutivos. E aqui estamos. A 6 contos do fim. As Conversas da Menina com o Mundo são este acumulo, parido com horas de trabalho, esforço e poesia.
O pique para tanto trabalho veio de um só lugar: a recepção maravilhosa que os contos tiveram nos meios virtuais. Os elogios, comentários, perguntas, depoimentos recebidos semana a semana, publicação a publicação. Acima de tudo, palavras de incentivo. E isso é o mais gratificante de todo esses escritos: saber que os esforços de algumas palavras e desenhos, às vezes, encontram acolhida em corações e mentes generosas.
Gratidão por todas e todos que acompanham as publicações das Conversas da Menina com o Mundo.
Findado este ciclo, terão os próximos passos: criar um site para abrigar os contos, diagramar todo o trabalho em um livro, construir espaço de divulgação do trabalho em revistas, jornais, publicações etc. Coisas que este pobre autor não tem condições de realizar somente com seus esforços. Veremos por onde este barco anda.
Por enquanto, rememos:
A todas e todos que seguem os contos, até semana que vem. Voltamos a normalidade das publicações, até o conto de número 25.
E então será mesmo uma despedida.
Por enquanto, é só o começo dela.

Há braços,

Rafael Presto
Autor das Conversas da Menina com o Mundo


segunda-feira, 13 de julho de 2015

19. A Menina e o Verme do Cemitério

- Mas então você convive o tempo todo com gente morta? – perguntou a Menina, espantada.
- Não! – exclamou o Verme do Cemitério. – Quem é que gosta de conviver com gente morta? Nós, vermes do cemitério, gostamos de comer os mortos.
- Que horror!
- Isso porque vocês, humanos, cercam a morte de sentimentalidades. É só verem um cadáver que, pronto, já ficam cheios de topos os tipos de afetos. Nós, vermes do cemitério, não. Quando vemos um cadáver pensamos: comida!
- Como você é insensível... – respondeu a Menina.
- Materialista.  Nós, vermes do cemitério, somos materialistas. E, afinal, vivemos de nos alimentar dos mortos. Mas isso não interfere na nossa sensibilidade. Existe poesia nisso que fazemos.
- Como assim?
- Comemos a morte e, assim, reciclamos a vida. Os cadáveres que digerimos retornam à terra, para que possam ser absorvidos pelas raízes das árvores ou da grama. Fazemos parte desse ciclo geral das coisas, do movimento da existência, com seus nascimentos, transformações e mortes.
- É verdade, há nisso muita poesia.
- Estou te dizendo.
- Bem, preciso ir. – finalizou a Menina. – Vou deixa-lo com seus mortos. E com seus versos.
- Gratidão. Te desejo o mesmo: siga bem com os seus, Menina.
- Com meus versos?
- Com seus mortos. -  concluiu o Verme do Cemitério. -  Siga bem com seus mortos.

   

segunda-feira, 6 de julho de 2015

18. A Menina e o Muro

- Mas você é muito impositivo. – disse a Menina, instigada.
- E o que você esperava? – respondeu o Muro, com naturalidade. – A imposição é a principal característica que carregamos, nós, muros que separam as propriedades. Nosso trabalho é esse: impor no espaço uma série de recortes.
- E vocês recortam o espaço para que?
- A pergunta certa, Menina, não é para que, e sim, para quem. Recortamos o espaço por desejo da humanidade. Ou pelo menos de uma parte dela. Nós, muros, somos a materialização da vontade de alguns.
- Que vontade?
- Não é óbvio? A vontade de alguns de pegar para si uma parte do espaço. Essa é nossa real função: garantir que os lugares possam ter donos. Não é um trabalho muito bonito, mas fazemos sem reclamar. É com ele que se definem as fronteiras de todas as coisas: países, fazendas, fábricas, prédios. É a dureza de nossas pedras e tijolos que garantem as propriedades do mundo.
- Mas... e as pessoas que não tem espaço algum? Como ficam? – retrucou a Menina.
- Do lado de fora. – disse o Muro, definitivo. – Essa é nossa obrigação fundamental: garantir as desigualdades dos espaços onde a humanidade existe. Cumprimos nosso dever de muros a muitos milênios, desde os primeiros passos da sua espécie.
- Isso é muito sufocante... – falou a Menina, aflita.
- Depende do ponto de vista. Mas lembre-se sempre disso: não existem muros que não possam ser derrubados. – finalizou o Muro. – Nesse mundo, Menina, tudo que tranca, trinca.